quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Quinto poder...


A gente sempre ouve falar dos tres poderes:

Executivo
Legislativo e
Judiciário.

Passamos a ouvir falar da imprensa como o 4º poder. Porém o que limita a imprensa na condição de 4º poder é o fato dela possuir dono(s), servindo, portanto a interesses particulares por mais que alguns meios se vangloriem de uma certa indepedencia..(áh váaa)...

A Internet não poderia ser considerada uma espécie de 5º poder?

Alguns dirão que ela se incluiria na imprensa...Será?

Explico, a internet não tem dono e cada dia mais tem mostrado isso. Cada um que detém uma informação a repassa como e quando quiser, Twitter, sites de relacionamentos, blogs e etc.

Que o diga a febre do momento, o tal do Wikileaks, além dos sites em que todos podem interferir policiados mutuamente como o Wikipédia...sem falar nos blogs jornalísticos independentes que se multiplicam freneticamente...

A tentativa de alguns países de cercear o Wikileaks e a desaprovação da sociedade global demonstra claramente que as formas de controle tradicionais e a ausência de transparência são coisas do passado.

A internet parece até a materialização no mundo virtual da utopia anarquista que não foi possível (ainda) no mundo concreto...um mundo sem hierarquias, onde a informação circula livre, "leve" e solta.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Calem a boca, nordestinos!


Reproduzo aqui um texto que ganhou a internet nesta semana...Este blog é absolutamente contra toda e qualquer forma de preconceito.


Calem a boca, nordestinos!


Por José Barbosa Júnior

A eleição de Dilma Rousseff trouxe à tona, entre muitas outras coisas, o que há de pior no Brasil em relação aos preconceitos. Sejam eles religiosos, partidários, regionais, foram lançados à luz de maneira violenta, sádica e contraditória.

Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. E que fique bem claro: não os cito por terem apoiado o Serra... outros pastores se venderam vergonhosamente para apoiarem a candidata petista. A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.

Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: "Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!".

Infelizmente, Mayara não foi a única. Vários outros “brasileiros” também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos "amigos" Houaiss e Aurélio) do nosso país.

E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão!

Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!

Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?

Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?

Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?

Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos... pasmem... PAULISTAS!!!

E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.

Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.

Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura...

Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner...

E não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia...

Ah! Nordestinos...

Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?

Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.

Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!

Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!

Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário... coisa da melhor qualidade!

Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso... mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!

Minha mensagem então é essa: - Calem a boca, nordestinos!

Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.

Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.

Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”


Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!

domingo, 31 de outubro de 2010

"Cálidas felicitações..."


Frase de Hugo Chaves, o irreverente presidente venezuelano ao cumprimentar DILMA Rousseff, a primeira presidente eleita do Brasil.

Ter um cabo eleitoral do porte de LULA é o sonho de qualquer candidato. No entanto, atribuir a vitória de DILMA a LULA, tão somente, é algo que nem o próprio admite.

Há algo de especial nessa mulher que o presidente viu primeiro que todo mundo. Somente sua gestão à frente do governo revelará (ou não).

Dilma não é simpática, fato. Detalhe, precisa?

Dilma não tem currículo político (mandato), outro fato. E de novo pergunto, precisa?

A experiência é sempre importante, mas que tipo de experiência?

A eleição de DILMA nos leva a refletir sobre nossos pré conceitos.

Se falou muito nesses dias pré eleitorais sobre "criador e criatura", referência jocosa a LULA e DILMA.

O dado concreto é que Dilma teve experiência onde Serra não teve. Foi presa e torturada pelo regime militar, fato este que lhe propiciou conviver com o poder as avessas.

Por outro lado, esteve junto de um verdadeiro mestre da política. Como São Paulo, Apóstolo, aos pés de Gamaliel, assim foi Dilma, fiel discípula diante de Sua Excelência.

Dilma estava no lugar certo, na hora certa e com a pessoa certa. Quando a "estrela" de uma pessoa brilha desta forma, a experiência se torna consequência e não a causa desse brilho.

Afinal, para que serve a experiência desacompanhada da sorte?

É natural aos perdedores desdenhar dos vencedores. Foi assim com LULA. Diziam que ele teve a sorte de não enfrentar crises globais ao longo de seu governo.

Dizem que Dilma teve a sorte de ter LULA como cabo eleitoral.

Que dizer de Serra e da oposição atrapalhada que teve o azar de não ter sorte?

Por tudo isso, a saudação chavista à nova presidente é a que me parece mais propícia nesta hora:

Cálidas felicitações, DILMA!

Brasil, 31 de Outubro de 2010


Hoje é um grande dia para o Brasil. Confirmadas as pesquisas, teremos pela primeira vez na história uma mulher eleita para o posto mais alto do país. Isso seguido de oito anos do primeiro operário eleito para o mesmo cargo. Conclusão, o Brasil está mudando rapidamente. Está se tornando cada vez mais politizado. Tudo indica que há uma franca resistência ao modelo que engessou o desenvolvimento desse país por anos a fio. Basta de elites no poder! Por 500 anos o Brasil esteve em suas mãos e conhecemos o atraso na prática e na pele. Tiveram muito tempo para governar. Competencia, certamente não lhes faltava, mas faltava decência, faltava vontade política, faltava cristianismo para ver o outro como igual em meio a desigualdade que eles mesmo gestaram e promoveram. Hoje o povo da a resposta nas urnas, o recado é claro: "Cansamos de vocês e aprovamos o governo que representa as classes populares". Dentro em pouco as urnas serão abertas e o Brasil seguirá em frente com DILMA Presidente! Parabéns Brasil!

Marcello di Paola

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Considerações políticas à véspera da eleição...


Há três dias do 2º turno das eleições, a impressão que tenho é que vivemos um grande momento de nossa história republicana. Campanha eleitoral é um tempo de desgaste tanto para candidatos como para eleitores. A super exposição na mídia predispõe os candidatos ao excrutínio impiedoso da população, que por vezes esquece que quem concorre, além de político é humano e, portanto, passivo de irritação e atos falhos que, não raro, os "incriminam"...Evidentemente cada lado explora a fraqueza do outro superestimando seus vacilos. Somado tudo e descontado os excessos de ambas as partes, percebemos que o eleitor tantas vezes espera o que jamais virá, ou seja, o candidato ideal. A bem da verdade, candidato ideal não existe em parte alguma. O que existe são candidatos idealizados e, em grande parte, por um eleitorado despolitizado que não vive a essência da política fora dos períodos de campanha, triste legado de um país governado pelas elites, que pepertuou um sentimento de aversão pelo tema nas classes medias e populares. Após 8 anos de um governo decididamente representativo das classes marginalizadas, e confirmado nas urnas o que vem dizendo todas as pesquisas, a expectativa é que a continuidade com avanços, proposta pela líder nas intenções de voto, leve o eleitor a um redescobrimento da política, de forma a substituir expectativas surreais por uma militância cidadã e participativa ao longo do mandato. Que ao final desse pleito, todo o desgaste possa ter valido a pena diante do futuro brilhante a que estamos predestinados.

sábado, 23 de outubro de 2010

Revolução à francesa


Ser governo, definitivamente não é tarefa fácil. O problema que a França enfrenta hoje, chegará mais cedo ou mais tarde em diversos países, inclusive no Brasil. O défict das previdências mundiais é o preço pelo avanço da tecnologia na medicina. As pessoas estão vivendo cada vez mais. Em contrapartida não está havendo uma reposição de mão de obra proporcional aos que se aposentam. Menos pessoas estão nascendo. É evidente que os dias de hoje são outros, mas não há como não evocar a célebre fala de John Kennedy na década de 60:

"Não perguntem o que os Estados Unidos podem fazer por nós, mas o que nós podemos fazer pelos Estados Unidos"

Os franceses, com seu histórico de politização, são altamente sensíveis quanto as suas conquistas sociais e por isso foram às ruas protestar.

Na época de Kennedy, o contexto de guerra fria unia a nação norte americana em torno de um só objetivo, o combate ao inimigo comum, o comunismo. O discurso presidencial encontrava guarida nos corações que estavam predispostos a delegar ao Estado todos os seus direitos com vistas ao bem comum.

A França moderna parece não ter um inimigo comum que justifique postura semelhante.

Seja como for, o dado concreto é que ninguém quer pagar a conta da crise gerada pelos avanços da tecnologia. Tudo tem o seu preço. A sociedade francesa, e não só ela, mas a sociedade global precisa refletir sobre essa realidade presente, o custo do bem estar social.

Os teóricos debatem, mas o senso comum precisa entender que tudo que se ganha de um lado, se perde por outro, ainda mais no capitalismo.

Trago um link de acesso às fotos que retratam o atual momento frances...

http://especiais.ig.com.br/zoom/protestos-e-greve-na-franca/

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Capitalismo x Cidadania


“Sou consciente de que meu patrimônio é fruto da desigualdade social e aí vejo uma responsabilidade. O capital é uma ferramenta, quase sempre usada para gerar mais capital. Eu estou tentando entender como usar ele para criar cidadania ”.

(Marcos, um jovem milionário de 26 anos em crise existencial com o capitalismo)

Fotógrafos em situação de rua em São Paulo expõem arte para a elite
Breno Castro Alves
Especial para o UOL Notícias
Em São Paulo

Famosa por suas lojas caríssimas e público abastado, a rua Oscar Freire acaba de inaugurar um espaço para expor contradição social. O espaço da loja Op Art recebeu nesta segunda-feira (18) a primeira exposição do projeto Trecho 2.8, apresentando 50 fotografias de arte de dez cidadãos em situação de rua, moradores do centro de São Paulo. As imagens ficarão por ali até o próximo dia 23 de outubro, em exposição preparatória para o leilão que acontecerá dois dias depois disso na ainda mais pomposa Villa Daslu. Ambas terão portas abertas e entrada franca.

As 50 fotos foram produzidas ao longo dos últimos cinco meses. Foram utilizadas câmeras semiprofissionais digitais.

Primeira iniciativa do Instituto Brasis, o Trecho 2.8 propõe construir deslocamentos sociais. O grupo inicia conta com dez pessoas em situação de rua que demonstraram o interesse de aguçar o olhar para buscar o novo em uma realidade saturada. Os coordenadores entrevistaram cerca de 20 possíveis candidatos, sem revelar que os participantes ganhariam também uma bolsa de meio salário mínimo. Buscavam formar um grupo pequeno, reunindo pessoas com genuíno interesse por desenvolver subjetividade e arte.

Selecionaram 11 -apenas uma participante desistiu. Os encontros do Trecho reúnem fotógrafos, os dois coordenadores do projeto e dois diretores do Brasis. O número reduzido permitiu um aprofundamento da experiência individual em um grupo onde, nos últimos cinco meses, se discutiu e exercitou fotografia. Os fotógrafos lidaram com seu extremo oposto na pirâmide social. Os dez participantes foram os convidados de honra da abertura da exposição ontem à noite e estarão também na abertura do evento na Villa Daslu.

O Brasis foi criado pelo empresário Marcos Amaro, instigado a promover ações para diminuir a desigualdade social e expor contradições dentro da elite. O jovem de 26 anos tem a consciência de quão necessário é questionar e apontar as contradições das elites. Assim, o Brasis propõe pensar um trabalho de educação e formação não apenas para as populações mais pobres. Todos precisam de educação social e responsabilidades, principalmente os mais ricos.

O milionário está nu
Estudar filosofia abriu caminhos e a cabeça de Marcos. Começou aos 23. Até ali, o jovem havia se dedicado exclusivamente a multiplicar uma herança milionária. Hoje, tem 26 anos, participação em várias empresas e algumas dezenas de milhões de reais. Fundou o instituto para lidar com contradições instigadas por estudar pensadores como Platão, Kant e Freud com seu professor, Donizete Soares. Hoje, se apropria de Marx para pensar uma visão de mundo: “Sou consciente de que meu patrimônio é fruto da desigualdade social e aí vejo uma responsabilidade. O capital é uma ferramenta, quase sempre usada para gerar mais capital. Eu estou tentando entender como usar ele para criar cidadania ”.

Marcos tem fala pausada e dicção perfeita, age com cordialidade sincera. Há três anos reuniu amigos inquietos – e milionários – para formar um grupo de estudos. Buscando novas visões para entender seu lugar no mundo, foram atrás de filósofos e de si mesmos. As contradições do grupo afloraram e há um ano surgiu o Brasis, instituto que propõe uma troca de visões entre os extremos da pirâmide social. Villa Daslu não é exatamente o cenário da vida de um sem teto.

Assim, buscam brechas de conscientização. Propõem à elite o financiamento de um instituto em aberto que, por princípio, busca contato. O Brasis tem 35 mantenedores que contribuem mensalmente com dinheiro não deduzível de imposto. Talvez alguns deles estejam expiando suas consciências, mas Marcos não está. “Não carrego culpa, não é um pecado ter dinheiro, sinto mais como responsabilidade. Não é alívio de consciência, é projeto de vida. Devo passar 70% do meu tempo trabalhando para o Brasis. Nessas pessoas encontrei as coordenadas de onde me posicionar no mundo”, conclui.

Instituto Brasis: estudos e ações
O Trecho 2.8 é realizado em parceria com o Instituto GENS, responsável pela formulação e execução do projeto. “Entendemos nosso trabalho junto ao Brasis como a possibilidade de colaborar para que um grupo de jovens empresários repensem seu papel social”, avalia Grácia Lopes Lima, fundadora do GENS, junto a Edson Fragoaz, uma das coordenadoras do Trecho 2.8.

A professora - “educadora não, porque educar é responsabilidade de todo adulto” - está satisfeita com o modelo de co-gestão que o grupo vem construindo. Não existe imposição de um modelo ou caminho, não é um projeto social formatado como a solução para pobres coitados. As discussões estratégicas são coletivas, todos os participantes, de coordenadores a fotógrafos, têm voz sobre como lidar com aquela construção. O grupo, que se reunia duas vezes por semana para discutir fotografia, decidiu também se encontrar a cada 15 dias para estruturar coletivamente a próxima ação do Brasis.

Diz Grácia: “Estamos formando um grupo para pensar ações coletivamente, para sair do movimento de promover projetos em benefício daqueles que não têm. Estes rapazes estão interessados também em entender o contexto social que, se por um lado gerou seu patrimônio, por outro privou multidões dele. Por isso o subtítulo do instituto me agrada: estudos e ações. O mais desafiador é manter a coerência”.

Artistas em situação de rua
Tião Nicomedes é negro de barba grossa, corpo largo e cabeça boa. Sentado no chão de pedra do vale do Anhangabaú, centro de São Paulo, relembra seus tempos de albergue: “Rapaz, aquilo lá é muito aborrecimento, se for ligar para tudo o cara paralisa. Tinha época em que eu quase não trocava de roupa, não tinha motivação pra pensar esses detalhes”. Viveu quatro anos na rede de assistência e se pudesse teria saído no primeiro mês.

Ali, porém, encontrou a arte. Começou a escrever para criar outro mundo onde viver, um mundo onde as coisas são certas e o sujeito não precisa ficar ouvindo besteira de assistente social. “Pegar o barro ou a caneta e fazer algo bacana, o cara se sente útil, repensa sua vida, não é?”. Assim, quando surgiu a proposta de trabalhar fotografia com o Trecho 2.8, agarrou a possibilidade de aprender nova linguagem.

“O Trecho é um dos poucos projetos onde não nos tratam como idiotas carentes”, avalia. “Ali todo mundo opina, todo mundo decide junto. Tanto que nem chama oficina, é um projeto de criação e pesquisa. Trazer um negócio pronto e implantar sem nem perguntar se as pessoas querem aquilo tem de monte, meu irmão, você precisa ver quantos diplomas o camarada junta em um ano de albergue. Eu tenho mais de trinta: “tá aqui, Tião, pega seu papel e leva esse abraço”. Pra quê?”.

Sem caridade, trabalho
Tião e os outros nove participantes do projeto – que infelizmente não puderam ser ouvidos pela reportagem – prestarão serviços de fotografia à Caititi, empresa com fins lucrativos que está sendo criada pelo Brasis para gerar renda. Diferente de uma empresa comercial, não vai aumentar o capital de um dono. Descontadas todas as despesas, o lucro ficará entre os participantes. Oferecerão serviços de fotografia artística e comercial e já fecharam seu primeiro contrato com uma empresa de moda. A decisão de criar a Caititi e suas características vem sendo definidas uma a uma por todos os participantes do projeto, milionários e miseráveis, com a mesma voz.

Não há benevolência no processo. Não há a necessidade de realizar caridade, todos estão ali por interesse individual. É trabalho e todos ganham com o processo. Marcos entende o potencial de explorar um nicho novo de oportunidade e começa a desencadear um movimento de responsabilidade baseado em envolvimento individual.

Mas a mudança profunda vem com os participantes. Todos se beneficiam da possibilidade de se reinventarem criativos, de se construírem autônomos. Treinar o olhar sobre a outra ponta da pirâmide social pode ensinar sobre seu lugar no mundo.

Fonte:http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/10/19/fotografos-em-situacao-de-rua-em-sao-paulo-expoem-arte-para-a-elite.jhtm